Guia Editorial — regras operacionais do livro

Versão operacional das orientações pedagógicas. O parecer completo (com fundamentação) está em estudos/2026-07-25-parecer-editorial-plano-pedagogico.md. Este guia é o que se consulta enquanto escreve.

1. O framework pedagógico em quatro linhas

Framework O que dita no livro
Backward Design Todo capítulo se projeta de trás para frente: objetivos → evidências (verificação/prática) → só então o conteúdo
4C/ID Etapas do harness-zero = tarefas inteiras; capítulos = informação de apoio; boxes no código = just-in-time; katas = treino de parte
Diátaxis Quatro tipos de texto, nunca misturados na mesma seção: capítulo=explanation, harness-zero=tutorial, templates/benchmark=reference, "o que roubar"=how-to
Carga Cognitiva Worked examples antes de exercício; exercícios são "complete", não "crie do zero"; andaime diminui etapa a etapa; uma ideia nova por vez

2. Esqueleto v3 de capítulo (obrigatório; piloto: cap. 04)

Regra de edição (v3): ao abrir cada tema, buscar também material comercial/industrial (docs oficiais de vendors, blogs de engenharia, posts de praticantes) além do científico. A fonte-base continua sendo o código dos repositórios. O corpo do capítulo recebe o estado da arte (o que está mais moderno, sintetizado de todas as rodadas do benchmark + indústria); o tratamento detalhado por repositório vai para o Apêndice do arquivo — que fica na versão online como complementação e é atualizado a cada rodada.

  1. Objetivos — 3–5, verbos de Bloom (explicar, comparar, implementar, avaliar)
  2. O problema — por que a dimensão existe
  3. Fundamentos científicos — 2–4 papers traduzidos para decisões; ponteiro para bibliografia.md
  4. Fontes da indústria — docs de vendor e posts de engenharia relevantes, com a mesma regra de tradução ("o vendor recomenda X porque Y")
  5. O estado da arte — o corpo principal: padrões consolidados + o que há de mais moderno, citando repositórios apenas como exemplos nominais (o detalhe fica no apêndice)
  6. Mão na massa — a etapa correspondente do harness-zero
  7. Síntese + "o que roubar" — leitura executiva e ideias exportáveis
  8. Verificação — 2–3 perguntas que testam exatamente os objetivos do item 1
  9. Apêndice A — Como cada repositório trata — a evidência por harness com paths, expandida a cada rodada do benchmark (material de complementação online)

2.1 Livro vivo: datação e histórico (obrigatório)

Este é um livro vivo — coerência com a própria tese (a cláusula de expiração: o que descrevemos é temporário). Três regras:

  1. Todo capítulo v3 declara a data de captura no cabeçalho: > **Estado da arte capturado em AAAA-MM** · última revisão AAAA-MM-DD · [histórico](../HISTORICO.md). Isso diz ao leitor se a seção "Estado da arte" está fresca — o que a data do evento (no corpo) não faz.
  2. Distinguir três datas (ver HISTORICO.md): data do evento (no corpo — fato histórico, imutável), data de captura (no cabeçalho — quando fotografamos), rodada do benchmark (nas avaliações — versão da foto de cada repo). Reavaliar = nova rodada, nunca sobrescrever.
  3. Toda edição atualiza livro/HISTORICO.md: o changelog de edições, a tabela de snapshot por capítulo, e — o mais importante — o registro de expiração (o placar das previsões: cada cláusula de expiração pontuada 🔵/🟡/🟢/🔴 contra a realidade, com evidência datada). Uma linha que muda de estado é a notícia mais importante de uma nova edição.

Regra de escrita associada: quando uma afirmação for sensível ao tempo ("hoje", "ainda não", "o consenso de 2026"), ela está implicitamente sob a data de captura do cabeçalho — não precisa datar cada frase, mas evite absolutos atemporais ("nunca", "sempre") a menos que sejam do tipo não-expira (fronteira com o mundo).

3. Regras de escrita permanentes

  • Evidência por caminho de arquivo para qualquer afirmação sobre um harness; status ✓ para qualquer citação científica (skill academic-research tem o fluxo).
  • Notas 0–3 só comparam dentro da mesma categoria do benchmark.
  • Cada componente descrito deve, quando possível, declarar sua cláusula de expiração.
  • Prosa em português; termos técnicos consagrados (harness, loop, tool, prompt) sem tradução.
  • Tabelas para fatos enumeráveis; explicação vive na prosa, não nas células.

4. Regras do harness-zero (as 4 condições do parecer)

  1. DDD leve — linguagem ubíqua = glossário do livro; padrão tático só onde paga; DDD aparece como consequência nomeada no código.
  2. Arquitetura por refatoração — cada porta nasce da dor do capítulo correspondente; nunca estrutura antecipada.
  3. Anti-apodrecimento — modelo atrás de LLMPort; etapas autocontidas e executáveis; erros didáticos deliberados são comentados como tal no código.
  4. Chat congelado — HTML+JS servido pelo backend; só evolui quando uma dimensão exigir superfície nova.

5. Ferramentas do repositório

  • spec-kit (.specify/ + comandos /speckit-*): para features novas do harness-zero ou seções grandes do livro, o fluxo é /speckit-specify/speckit-plan/speckit-tasks/speckit-implement (com /speckit-clarify antes do plano quando o pedido for ambíguo). A constitution do projeto vive em .specify/memory/.
  • Skill academic-research (.claude/skills/): fluxo de localizar → validar → registrar → integrar referências científicas.
  • scripts/sync-forks.ps1: sincronização local dos forks com upstreams.

6. Estudo: processos e metodologias de escrita editorial e acadêmica (tradicionais e da era-IA)

Atualizado em 2026-07 · livro vivo (as práticas de IA têm data de expiração). Fontes na seção "Guia — Metodologias de escrita" de bibliografia.md.

Um livro sobre engenharia — a disciplina de instrumentar bem um processo — precisa expor o próprio processo de produção, ou contradiz o que ensina. Esta seção é um survey das metodologias de escrita editorial e acadêmica (as consagradas e as da era-IA) e, ao fim, torna explícito e datado o método com que este livro é escrito. É texto de referência/explicação (Diátaxis), não um capítulo — por isso não segue o esqueleto v3.

6.A — Metodologias tradicionais

Estrutura da escrita científica. O IMRaD (Introdução, Métodos, Resultados, Discussão) não foi inventado por um autor: Sollaci & Pereira (2004) mostram que foi "imposto por decantação", virando padrão nos anos 1980. O clássico Gopen & Swan, "The Science of Scientific Writing" (1990) estabelece o princípio da expectativa do leitor — o sentido nasce da posição estrutural (topic/stress positions), não só das palavras. A codificação prática está em How to Write and Publish a Scientific Paper (Day & Gastel).

A escrita como processo cognitivo. Flower & Hayes (1981) modelam a escrita como processos recursivos (planejar/traduzir/revisar) guiados por objetivos, não etapas lineares; Sommers (1980) mostra que escritores experientes revisam re-vendo o sentido, enquanto novatos trocam palavras na superfície — "escrever é reescrever".

Craft e estilo. A tradição vai do minimalismo prescritivo de The Elements of Style (Strunk & White) à teoria principiada da clareza de Style: Toward Clarity and Grace (Williams — personagens=sujeitos, ações=verbos, velho-antes-de-novo), passando pela voz autêntica de On Writing Well (Zinsser); os padrões editoriais/citação são o Chicago Manual of Style (17ª ed.) e o APA Publication Manual (7ª ed.).

Craft of research e argumento. The Craft of Research (Booth, Colomb & Williams) enquadra pesquisa como fazer um argumento a um leitor (problema → pergunta → claim → razões → evidência; o "So what?"); o modelo de Toulmin (1958) dá a anatomia do argumento (claim, grounds, warrant, backing, qualifier, rebuttal).

Revisão por pares e fluxo editorial. Spier (2002) traça a história do peer review; a historiografia (Baldwin, ETHOS) lembra que o refereeing universal é construto do séc. XX. E a divisão de trabalho editorial — developmental editing (reestruturar visão/discurso) × copyediting (preparo de sentença) — é o eixo do fluxo (Norton, Developmental Editing).

Design instrucional (o que este livro já usa). Backward Design (Wiggins & McTighe), 4C/ID (van Merriënboer et al., 2002), carga cognitiva (Sweller, 1988) e Diátaxis (Procida) — a base pedagógica do Princípio III.

6.B — Metodologias da era-IA

Co-escrita humano-IA. Estudos de HCI tratam a co-escrita como interação observável, não caixa-preta: CoAuthor (Lee, Liang, Yang, 2022) registra a interação em nível de keystroke; Wordcraft (Yuan et al., 2022) decompõe a escrita em moves (continuar/infill/elaborar/reescrever) ligados à intenção. Cautela medida: Jakesch et al. (2023) mostram que um assistente enviesado desloca o que o usuário escreve e pensa ("persuasão latente").

Spec-driven / structured authoring / docs-as-code. Escrever a intenção primeiro e deixá-la dirigir a geração: GitHub Spec Kit (spec → plan → tasks → implement) e Amazon Kiro formalizam isso; a comunidade de documentação já adota workflow de engenharia para prosa (docs-as-code, SIGDOC '24; DITA/topic-based).

Pesquisa aumentada por agentes e recuperação. RAG (Lewis et al., 2020) ancora a geração em fontes recuperadas em vez da memória do modelo; a fronteira agêntica decompõe o survey em papéis (buscar/sintetizar/verificar) — tendência ilustrada por trabalhos de auto-survey (⏳ a confirmar).

Verificação e proveniência. RARR (Gao et al., 2023) faz atribuição/checagem após a geração; Liu, Zhang & Liang (2023) medem que só 51,5% das afirmações de motores de busca generativos são totalmente suportadas por citação — julgar por citation precision/recall; watermarking (Kirchenbauer et al., 2023) embute proveniência (frágil a paráfrase).

Integridade acadêmica e autoria. O consenso das políticas: um LLM não pode ser autor (não responde pelo conteúdo) e o uso deve ser divulgadoICMJE, COPE (2023), Science (Thorp, 2023), Nature (2023). E a divulgação, na prática, é amplamente violada (Academ-AI, 2024).

6.C — Tensões e síntese (tradicional × IA)

O ganho da assistência de IA (velocidade, alcance de pesquisa, estrutura) vem com quatro tensões que uma edição acadêmica não pode ignorar:

  • Fontes fabricadas. Walters & Wilder (2023) mediram 55% de citações fabricadas no GPT-3.5 (18% no GPT-4) e erros substantivos nas reais — daí a regra deste livro: verificar toda referência contra a fonte primária, por busca cruzada.
  • Verifiabilidade. Texto que parece citado frequentemente não é suportado (os 51,5% de Liu et al.) — a citação precisa ser conferida, não confiada.
  • Reprodutibilidade. Saídas de LLM são não-determinísticas; logar prompt, versão de modelo e contexto é parte do rigor.
  • Homogeneização e "cognitive debt". A IA converge estilo e ideias (homogeneização, 2024) e o uso acrítico associa-se a menor engajamento/propriedade (Kosmyna et al., 2025) — razão para a IA ampliar, não substituir, o julgamento do autor.

A síntese do livro: usar a IA como prótese de pesquisa e estruturação sob verificação humana, não como autor. As metodologias tradicionais (argumento, clareza, revisão) permanecem o padrão de qualidade; as de IA aceleram o caminho até ele, desde que cercadas de verificação.

6.D — O método deste livro, declarado

Este livro pratica o que descreve. Cada prática liga-se a um princípio da constituição e tem evidência no próprio repositório:

  • Evidência acima de retórica (Princ. I) — nenhuma afirmação sobre um harness sem path no código; nenhuma citação sem status validado. Fontes verificadas por busca cruzada; lacunas registradas, não preenchidas com fonte fraca.
  • A fonte-base é o código (Princ. II) — o corpo nasce da leitura do código dos harnesses; ciência e indústria contextualizam. O tratamento por repositório (com paths) é o Apêndice A de cada capítulo.
  • Método pedagógico combinado (Princ. III) — Backward Design + 4C/ID + Diátaxis + carga cognitiva; o esqueleto v3 é a materialização.
  • Pesquisa dupla verificada — ao abrir cada tema, agentes de pesquisa em paralelo levantam material científico e de indústria; cada fonte é confirmada por ≥2 menções independentes antes de entrar (a regra que a era-IA torna ao mesmo tempo possível e obrigatória, à luz de Walters & Wilder).
  • Ciclo spec-driven (Princ. VII) — toda melhoria passa por spec → plan → tasks → implement (spec-kit), em branch própria; esta seção foi produzida assim (specs/010-estudo-metodologias-escrita/), com o ciclo oficial e seus gates (Constitution Check, análise cross-artefato).
  • Livro vivo (Princ. IV) — datação e HISTORICO.md; as previsões têm um placar (registro de expiração).

Divulgação de autoria (transparência). Coerente com as políticas acima e com o Princípio I, declaramos abertamente: este livro é co-escrito com um agente de IA (Claude Code, da Anthropic) operando sob autoria, curadoria e responsabilidade humanas. O agente executa pesquisa, redação e o ciclo spec-kit; o autor humano define o escopo, decide (via /speckit-clarify e revisão), verifica as fontes e responde pelo conteúdo. Seguindo ICMJE/COPE/Nature/Science, a IA não é listada como autora — não pode ser responsável — e seu uso é divulgado aqui, no método.

6.E — Fluxo repetível para um contribuidor

Para levar um capítulo ou seção ao padrão do livro:

  1. Abrir o tema — pesquisa dupla (comercial/industrial + científica), verificada por busca cruzada; registrar lacunas.
  2. Reunir a fonte-base — ler o código dos harnesses; anotar paths (vira Apêndice A).
  3. Escrever — no esqueleto v3 (capítulos) ou no tipo Diátaxis correto (guia/benchmark = referência); um tipo de texto por seção; termos técnicos sem tradução.
  4. Revisar (developmental) — re-ver estrutura e sentido antes do copyedit de superfície: o argumento fecha? a ordem serve ao leitor? há redundância ou lacuna? "Escrever é reescrever" (§6.A; portão de qualidade da constituição).
  5. Verificar fontes — nenhuma URL/ID inventado; não-confirmado marcado ; sincronizar bibliografia.md.
  6. Gate de buildnode publicar/build.mjs verde (sem link interno quebrado).
  7. Datar — selo de captura no capítulo e entrada no HISTORICO.mdcom a versão do modelo de IA usada — se o estado da arte mudou.

Salvaguardas de uso de IA: a IA pesquisa e rascunha; o humano decide, verifica e assina. Toda fonte trazida por um agente é conferida antes de entrar no corpo.

Siglas e glossário (política)

  • Toda sigla técnica é apresentada por extenso na 1ª ocorrência de um capítulo — "Model Context Protocol (MCP)" — e, dali em diante, o texto pode usar só a sigla.
  • O motor de publicação reforça isso: envolve automaticamente cada sigla conhecida em <abbr>, de modo que passar o mouse revela o significado em qualquer ocorrência, sem poluir o texto-fonte. O mapa de siglas vive em publicar/build.mjs e é espelhado na página Glossário (livro/glossario.md).
  • O Glossário dá o por extenso, uma explicação curta e em que capítulos cada sigla aparece. Ao introduzir uma sigla nova, adicione-a nos dois lugares (mapa do motor + glossário) e confira a expansão na fonte (Princípio I).

Cadência do livro vivo

Política decidida no ADR 0007 (alternativas e justificativa lá).

  • Janela trimestral (próxima: 2026-10): re-sync dos 16 forks (scripts/sync-forks.ps1), diff dirigido pelas dimensões do benchmark, atualização dos Apêndices A afetados, do placar de expiração e das datas de revisão; edição minor no Histórico.
  • Gatilho extraordinário: qualquer evento que invalide uma "Leitura executiva" (mudança de protocolo, capacidade migrando para o provedor, harness do corpus arquivado) dispara revisão pontual do capítulo afetado, sem esperar a janela.
  • A data "estado da arte capturado em" de cada capítulo continua sendo a verdade exposta ao leitor — a cadência existe para que ela nunca minta por omissão.